sábado, 14 de março de 2015

Lewis Carroll

" Lewis Carroll
Tudo em Lewis Carrol começa por um combate terrível. É o combate das profundezas: coisas arrebentam ou nos arrebentam, caixas são pequenas demais para seu conteúdo, comidas são tóxicas ou venenosas, tripas se alongam, monstros nos tragam. Um irmãozinho usa seu irmãozinho como isca. Os corpos se misturam, tudo se mistura numa espécie de canibalismo que reúne o alimento e o excremento. Mesmo as palavras se comem. É o domínio da ação e da paixão dos corpos: coisas e palavras se dispersam em todos os sentidos ou, ao contrário, soldam-se em blocos indecomponíveis. Nas profundezas, tudo é horrível, tudo é não-senso. Alice no País das Maravilhas era para intitular-se inicialmente As aventuras subterrâneas de Alice".

"Crítica e Clínica", por Gilles Deleuze, pela Editora 34

terça-feira, 20 de dezembro de 2011





Evan Lee. Every Part from a Contafl ex Camera, Disassembled by the Artist During
Winter, 1998. 2006. 50 × 38 inches. Inkjet print. Courtesy of Monte Clark Gallery, Vancouver/Toronto. 
   (reprodução não autorizada do livro de Hirsch)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

1. Para Lewis Carroll ou por Alfabetizadores Generosos

       Veiga-Neto (2001), citando Pierre Bordieu, fala de uma "hexis corporal" dos aprendizes escolarizados ao nos instigar com a pergunta: "as crianças ainda devem ir à escola?" . O autor tenta superar a dicotomia corpo-aprendizagem instaurada pelos reformistas modernos da educação que, sem sucesso, encontram na disciplinarização respostas para o fracasso escolar. Mantemos o avanço importante da discussão sobre a "hexis" de Veiga-Neto, no sentido de propor uma "hexis" do cuidado para processos de leitura e escrita na contemporaneidade.
       Lévy (1999) já nos alerta acerca do risco que incorremos ao transpormos para as redes de comunicação aquilo que não conseguimos superar na vida cotidiana, ou seja, transpor para a rede nossa miséria humana, pobreza de vínculos, contiguidades sem efeito etc. Ao mesmo tempo em que criamos como tentativa de expressão e resistência, escapando das teleologias herdeiras do humanismo, somos impregnados ou arrebatados pelos signos das forças do capital ou aquilo que Guattari (1986) chama de "pulsão capitalística", na versão atualizada do mass media. Somos codificados e sobrecodificados a todo instante, segundo os pensadores.
       Todo o trabalho de codificação e sobrecodificação acaba por deixar resíduos, restos, excessos ou nos joga num vazio nem sempre pleno. Talvez nunca na história do pensamento humano tenhamos vivido tamanha residuação conceitual, analítica e informacional. Se, de um lado, ainda são alarmantes os índices de analfabetismos de toda a ordem - funcionais, gramaticais, amorosos, amistosos etc - imaginemos, por outro lado, os analfabetismos digitais, dos quais não escapamos.
       Cansados de ler, professores que somos, abrigamo-nos na escrita e na escuta vazia de nossos alunos, ávidos por reconhecimento identitário (Tavares, 1996).
       Na operação emblemática de nos reinventarmos através da alma dos poetas, operação sempre ilusória historicamente, quem perde é a literatura, e a poesia, por sua vez, em vigor e riqueza.

                                                              "a velhice é um destino
se a decifro no corpo
a adolescência senil
movimenta todas as minhas roldanas
conscientes
descubro um novo código para falar
com as minhas indagações
insatisfeitas
reinvento-me na beleza interna
e duradoura
que tem o poder de transmutar
o espelho
(Alves, 2007, p. 30)



       Como cientistas da linguagem, apostamos também nos movimentos exteriores da poesia, ou seja, na "beleza" externa e perene que não precisa de espelho. Podemos, desavidamente, decretar o fim da poesia e da poeta, com este movimento num retorno nefasto ao século XIX.


"Quanto mais a poesia está próxima desse limite onde ela
"substitui tudo pela falta de tudo", mais o poema,
para ser capaz dessa operação de metamorfose deve,
por sua vez, ter realidade: mais
ele apela para os sons, o ritmo, o número, e tudo
o que chamamos de física da linguagem
e que, na palavra habitual,
consideramos normalmente como nulo.
Daí o privlégio concedido à escrita,
ao livro, no que ele tem de mais material,
"desenho espacial de vírgulas e pontos"
(Blanchot, 1997, p. 69).

        É, portanto, na passagem e na articulação crítica destes campos, que situamos nossa vontade por explorar o literário da e na escrita, por entendermos que na literatura em seus espaços e adjacências, outramos, apesar dos editores e linhas editoriais, designers, ilustradores, marqueteiros, etc. Se outramos, é possível pensar que a comunidade envolvida, outre. Dito de outro modo, quando sucumbimos de nós mesmos, quando reconhecemos a perda de sentidos vertiginosa e terrorífica imposta pelo "capital mundial integrado" (Guattari, 1986), escrever é possível. E a escrita não está separada daquilo que a faz movimentar, tampouco de sua indústria, numa ilusão de retorno euficado, drogadição sutil da subjetidade (Oury, 2009,  p.252). O termo "subjetidade" aqui é utilizado de forma a diferenciar do termo "subjetividade" mais usual em nosso meio.

        "....não pode haver conhecimento sem uma comunidade de pesquisadores, nem experiência interior sem a comunidadade daqueles que a vivem'" ( Bataille, 1992, p. 32)

         "O homem cessando - no limite do riso - de se querer ser tudo no final se querendo o que ele é, imperfeito, inacabado, bom - e se fosse possível, até nos momentos de crueldade; e lúcido... a ponto de morrer cego" (. op cit, p. 33).

        Ao estabelecermos uma função para a linguagem, abrimos ao mesmo tempo "a" crítica e "a" clínica como nos aponta Deleuze (1997). Crítica no sentido de resistirmos aos enquadramentos impostos aos escritores e suas comunidades e, clínica, porque, reconheçamos, a escrita faz devir mundos.
       E aí, nossa ressalva, neste instante, à psicanálise pret-a-porter midiática ou estatal (Ascott, 2005 ).   
       Decidimos estrategicamente, por ora, que escrever e operar psicanaliticamente são injunções incompossíveis na perspectiva de c@rtogr@fi@sliter@ri@s . O "incompossível" é conceito caro aos operadores e leitores do tempo por Deleuze (1998), no sentido de que são poucos os  que sustentam "a" 'pop filosofia'. E, repetimos, a decisão enquanto estratégia.
       Com isso, parece-nos que o caminho inicial da escrita fica mais revolvido e o escrever não se aliena de sua dimensão enlouquecida. Enlouquecida, desde já, entendamos como sinônimo de "intensiva", "diferençada"(Orlandi, 2000).

Referências

Alves, Velho é o espelho      
Ascott,    La plissure du texte       
Bataille    A experiência interior
Blanchot,Espaço Literário
Deleuze, Gilles. Crítica e Clínica
Guattari&Rolnik,
Lévy, Cibercultura.
Orlandi, Linhas de Diferenciação
Oury, Jean. O Coletivo 
Pelbart, O Tempo não reconciliado
Tavares, Heterogênese e educação
Veiga-Neto, As crianças ainda devem ir à escola